sábado, 14 de setembro de 2019

pode se abrir comigo.



pode se abrir comigo.


ei, você… cê tá mentindo, né? vamos, cara, pode se abrir comigo! não entendeu? eu explico.

você chegou à vida adulta!? parabéns, seu otário! talvez você tenha entendido o quanto a ideia de se tornar adulto é uma decepção. a impressão de que vai dar tudo certo, que a meritocracia finalmente te alcançou e você está equilibrado esperando os vindouros anos já está superada. agora, o que resta são dívidas financeiras e morais, uns fios de cabelo que teimam, à revelia dos hormônios, nascer e frágeis ereções. ser homem não te salvou de nada e a única redenção é parecer homem. suponho, isso nos matará. 

sou eu: homem, heterossexual, doutor em qualquer bosta e… sinceramente, não me sinto bem. a sensação que as coisas "conquistadas" trariam a satisfação é a pior roubada que eu já abracei e, convenhamos, que puta ingênuo do caralho eu fui. pode rir, mas aceite que isso pode estar acontecendo contigo. ri aí, seu pau no cu! 

acontece que um dia, cedinho ou mais tarde, a gente acaba respondendo à pergunta “ o que você vai ser quando crescer?” e esse é um puta desastre ocidental. a ideia meio que generalizada de que a vida adulta te trará um sentido, um significado. crescemos pensando que o futuro trará consigo a redenção, uma espécie de bônus. quando você percebe: passou a juventude, passaram os hormônios, nenhuma ereção é garantida. mano, fodeu! colocar a porra de uma camisinha pode ser uma tortura e você ainda não “sabe o que vai ser quando crescer”. 

se você ainda não entendeu, eu vou retomar umas coisas contigo. quando você era moço, cheio de vida e hormônios, pensou que a vida seguiria um curso natural para a satisfação pessoal. você via os adultos contando histórias de sucesso, sobre superação e como tudo tinha corrido bem apesar dos pesares. caiu nessa? pois é, estavam todos mentindo. provavelmente, você deve ter percebido que a vida adulta é uma sucessão de reuniões para discussão de pouca coisa importante em que você parece muito interessado e toma nota, avalia os outros, faz grupinho e, quando ninguém está vendo, tem pena de si mesmo. fuck off! isso é decadente e você tenta aprender o que ninguém te ensina: ser adulto!

ninguém te ensina a ser um adulto de verdade, porque está todo mundo meio ocupado em ser adulto de mentira. uma grossa argamassa de autoconfiança e todo tipo de mentira sobre si mesmo e as relações que estabelece, escondendo uma profundidade imensa de fracasso e pseudorgasmo. trágico! veio a vida adulta, mas a satisfação não veio. nenhuma história de superação é interessante o suficiente. nenhuma grana de sobra praquela viagem top no fim de ano. você faz o que qualquer um faria, mente. uma mentirinha aqui, ali. mente especialmente pra si mesmo. porra, cê não sacou? sério? tá todo mundo mentindo, cara. vai lá no balconista trintão agora e diz “mano, eu sei que o que você tá passando, pode se abrir comigo, não precisa mentir mais”, aposto uma cerveja que ele chora, ou pelo menos te olha com aquela cara de "fui descoberto" de quando alguém te pega batendo uma na infância. sério, ninguém escapa. trágico, mas sincero. 

Rubem Alves disse que “ a beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável”, ele era um cara que mentia bem, eu o olho e penso “ que adulto do caralho” (risos). eu concordo, há beleza na tragédia. ao se tornar adulto, além de mentir, você já entendeu quais são as suas drogas e pecados favoritos… o que você não esperava, talvez, é que seu melhor orgasmo ainda nem chegou. foda, ainda dá pra gozar sendo adulto. ainda dá pra jogar video-game e fazer merda. ainda dá e, provavelmente, você se sentirá culpado depois, mas a verdade é que ainda dá. 

foi o ocidente que inventou a pergunta “o que você vai ser quando crescer?”, foi o mesmo ocidente que inventou a nossa forma de ser homem, resistir ao mundo e sofrer. foi o ocidente que nos trouxe a nossa castração. que ocidente se foda! se eu posso te sugerir uma coisa é des-seja. foca nos momentos em que você tá comendo o doce a mais, tá abrindo a guia secreta, tá fazendo o que você não vai contar pra ninguém. se a mentira nos matará é a verdade a única opção para a vida que realmente faz sentido.

domingo, 21 de junho de 2015

eu não sei fazer poemas sobre você.
eu só sei te olhar.

fala do Arthur.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Eu não nasci homem.
Eu tinha pau e não era homem.
Eu tinha pêlos e não era homem.
Eu fui nomeado em masculino
Mas eu não era homem.
Me deram roupas que não eram masculinas, mas que eram chamadas de roupas para homens 
e eu não era homem.
Cresci e não era homem.
Nasceram pêlos no meu buço e no meu pau e no meu cu
E não era homem.
Eu não era homem quando puseram um "o", artigo-definido-masculino, na frente das coisas que se referiam a mim.
Mesmo assim eu não fui homem.
Eu quis ser homem quando vi Teresa.
Vi Teresa mulher... tão mulher, com seus pêlos, boca, odores...
Que pensei: essa noite eu quero trepar com Teresa.


ramonschavesMaio2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Eros e o espelho.

Vi, certa feita, sua nuca suavemente tocada por teus cabelos desgrenhados propositalmente. Não me disse nada. Sorriu blasé. Um riso de quem beira uma adolescência irritante e uma maturidade arrogante. Perfeição, notei, não era a sua.
-Oi.
Batom vermelho borrado pelo copo de bebida com altíssimo teor alcoólico e gosto entre doce e amargo. O mundo, às vezes, só se enfrenta quase bêbado. Quase chapado por um comprimido. Tem gente que, às vezes, chapa de coca, mas não é drogado. Toma Viagra porque, se não, o pau não dá sinal de vida. O desejo não é que o pau suba, é não perdê-lo frente a um corpo de mulher.
Vi um corpo de mulher com batom borrado pela bebida. Desejei. Não era uma transa, uma noite. Nem beijos. Era um desejo erótico, no entanto. Como quem contempla os Nus de Modigliane. Não se pode tocar. Não se pode ter um pau.
Eu falei inconstante. Ela nem ligou. Pareceu que nem ligou. Tanto faz. Não era um riso que eu esperava. Era aquela existência controversa e arrogante de quem te olha na linha de uma navalha. Não te deixa, senão, a tensão. O se.
Foi por um quase que fizemos amor. Entre outras tantas coisas, quando vi o meu desejo no espelho, você me mordia o ombro.



ramoncabrilde2015

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

um garoto de mãos enormes, grandes, muito grandes, lutava para pôr nos eixos a vida toda. ao contrário do que se possa imaginar, suas mãos não eram fortes. eram imensas mãos de menino. fracas como a de qualquer menino. imensas como as mãos de um deus. e o garoto, assim como deus, queria pôr a vida nos eixos. como quem põe ordem  nas coisas caóticas como uma trilha de formigas, ou nas folhas em outono.
pois bem que, um dia, o garoto decide que deveria cortar as próprias mãos. pôr no lugar mãos de robô, menores e mais fortes. tirar de si os membros exagerados que cresceram à revelia do destino, como a humanidade cresceu para deus, e , desta maneira, pôr fim às dores causadas por imensas mãos que só sabiam ser enormes.  mas eram frágeis, inábeis e fracas.
os pais, logo de início, fizeram gosto na ideia, afinal, uma mão exageradamente grande não serve muito, “como vai usar o teclado do computador?”, “ como vai segurar os talheres?”. as perguntar não cansavam.
o garoto de mãos imensas foi, então, à cirurgia. amputou de si os membros. o procedimento médico durou horas, e a recuperação foi muitíssimo dolorosa. todavia, o garoto teve mão robôs adequadas, em tamanho, à idade. mas a força era desproporcional. era demasiada. como as mãos de um deus.

como as mãos de um deus.
ramoncagosto2014.

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