Eros e o espelho.
Vi, certa feita, sua nuca suavemente
tocada por teus cabelos desgrenhados propositalmente. Não me disse nada. Sorriu
blasé. Um riso de quem beira uma adolescência irritante e uma maturidade
arrogante. Perfeição, notei, não era a sua.
-Oi.
Batom vermelho borrado pelo copo de
bebida com altíssimo teor alcoólico e gosto entre doce e amargo. O mundo, às
vezes, só se enfrenta quase bêbado. Quase chapado por um comprimido. Tem gente
que, às vezes, chapa de coca, mas não é drogado. Toma Viagra porque, se não, o
pau não dá sinal de vida. O desejo não é que o pau suba, é não perdê-lo frente
a um corpo de mulher.
Vi um corpo de mulher com batom
borrado pela bebida. Desejei. Não era uma transa, uma noite. Nem beijos. Era um
desejo erótico, no entanto. Como quem contempla os Nus de Modigliane. Não se
pode tocar. Não se pode ter um pau.
Eu falei inconstante. Ela nem ligou.
Pareceu que nem ligou. Tanto faz. Não era um riso que eu esperava. Era aquela
existência controversa e arrogante de quem te olha na linha de uma navalha. Não
te deixa, senão, a tensão. O se.
Foi por um quase que fizemos amor.
Entre outras tantas coisas, quando vi o meu desejo no espelho, você me mordia o
ombro.
ramoncabrilde2015
